Domingo, Janeiro 27, 2008

I mock humanity because I'm cool and shallow

Ao ridículo da atitude do sujeito 'denso' que esnoba as frívolas e banais alegrias da vida está a do sujeito hedonista que ridiculariza suas dimensões mais - caso vocês me permitam - fecundas. O segundo estará correto ao dizer ao primeiro que o sorriso de uma bela mulher vale muito mais do que 10 anos de filosofia alemã, porém o primeiro terá a seu favor o argumento de que seus 10 anos de filosofia alemã podem até ajudar a cativar uma bela mulher. Por mais ridícula que seja a grandiloqüência ingênua, mais ridículo ainda é o receio constante de que alguém perceba que em seu caráter reside uma dimensão que vá além da capacidade de fazer amenos e divertidos comentários sobre coisas simples e elegantes. O espertalhão super-ultra cool bem resolvido, que torce o nariz pra quem diz que lê Hegel, dizendo que pessoas inteligentes de verdade não lêem Hegel, é o mesmo cara que aprecia secretamente um arroubo sentimental excessivo lido numa elegia de Rilke, mas que publicamente apenas admite sua admiração pelo witticism britânico ( e se alguém perguntar se você está chorando você diz que foi um cisco).

É engraçado como existe uma espécie de pacto subjacente com relação à restrição do uso de termos como, por exemplo, "condição humana", "vida interior" ou "sabedoria", os quais podem parecer deslocados dentro da sensibilidade moderna, que os acusa de indicar nada mais do que uma grandeza algo caricata, um sopro retardatário do ennui ou mal du siecle. Um escritor inteligente e ponderado, que tenha que enfrentar fatalmente alguns destes termos, talvez sinta a necessidade de fazer uso de certa justificativa, ou solução criativa a fim de não comprometer a eficácia de sua argumentação, como fez Eliot num certo ponto de seu ensaio sobre Goethe: "Receio que a palavra que estou prestes a pronunciar venha a surpreender muitos ouvidos como um anticlímax a esse exórdio(...)". Quando um certo tipo de linguagem começa a cair em descrédito, é sinal de que o sentido o qual ela designava com perfeição começa a perder sua significação. No caso da reação negativa à grandiloqüência dita caricata, talvez nem seja o caso de que tais palavras tenham perdido seu sentido, mas apenas assumido uma forma mais eufemística, adaptada à afetada sensibilidade moderna e sua despropositada suspeita do 'profundo'. Não se pode esquecer que o hedonismo sofisticado só é logrado por aqueles que possuem certo talento para o drama, e que a irreverência na maioria das vezes disfarça uma tocante tragédia pessoal, a qual, por inteligência e cordialidade se transforma, em público, em gentil espirituosidade.

E parece ser uma regra universal o fato de que quanto mais você sofistica o seu gosto, mais cordial você se torna por fora, e mais intolerante por dentro.

9 brado(s):

Olivia disse...

eu diria que é tudo culpa do romantismo ;)

evelyn disse...

verdade seja dita, Olívia :)

Rubenito disse...

Eu discordo do que disse sobre 10 anos de filosofia alemã ajudar a cativar uma bela mulher. To encalhado têm 3 anos...rsrsrs. Adorei seu blog, parabéns.

Ronald Silva Robson disse...

'Não se pode esquecer que o hedonismo sofisticado só é logrado por aqueles que possuem certo talento para o drama, e que a irreverência na maioria das vezes disfarça uma tocante tragédia pessoal, a qual, por inteligência e cordialidade se transforma, em público, em gentil espirituosidade.'

Perceber isso com clareza é coisa sábia, viu.

=*

elisete disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
ulisses disse...

Assino o comentário do Ronald.

=]

livia soares disse...

Oi, Evelyn.
Muito oportuno refletir sobre isso. Excelente post. Cordial por fora e intolerante por dentro é a minha cara, de uns tempos para cá.
Quer dizer, às vezes eu nem sei por que eu tenho que ser cordial quando se trata de aturar axè-music, por exemplo, enquanto quase todos à minha volta se sentem muito à vontade para achincalhar meus discos de vinil (sem saber de quem se trata, só pelo fato de serem de vinil). Vou pensar profundamente sobre isso, reler o seu post, e já volto.
Um abraço.

Another disse...

Nhá, outra vez falando do Soares Silva, pô?

Daniel Philous disse...

Muito bom este approach...

Só que as vezes o cordial é cultivado dentro sob a proteção do intolerante exterior...

Ainda que a delicadeza e a fineza possa ser só a dissimulação mais refinada de um grande ódio e de uma grande aversão.

Mais ainda a sofisticação do gosto também leva a um cultivo exclusivo de si e de poucos próximos.

Mas discutir o quê? As opções de caráter de um desesperado não são - simpliciter - mais mediocres que as opções de caráter de um auto-suficiente. Pelo menos a indolência pode acompanhar os dois tanto quanto a perseverança e a diferença vai estar só e somente só na nossa percepção. No mais das vezes a posteriori e depois que as opções já foram feitas ao modo pequenino - para dar um exemplo de uma antiga amiga que disse ontém: as vezes uma pequenina escolha de um engajamento, de pegar um livro ou mudar de lado na rua configura grandiosamente o destino de uma pessoa.

Bem agora chega.

Parabéns mesmo.

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