Quinta-feira, Maio 22, 2008

men's curiosity searches past and future and clings so that dimension

Há um certo charme nestas visões decadentistas que costumam enxergar a história dos povos como um U invertido, sendo a época atual sempre identificada com algum momento deste ciclo final de queda (e agora me ocorre Spengler, e sua idéia sobre as civilizações serem organismos que crescem, chegam ao auge e decaem, e que via aquele início do séc XX como o momento de decandência de uma civilização cujo auge se dera durante a aristocracia prussiana, tipo um hegelianismo invertido).
A tendência é lamentar o advento dos novos tempos e aspirar ao retorno de um hipotético ‘auge’ precedente, como fizeram os românticos, por exemplo, ao contrastarem à idéia mantida desde os tempos de Leonardo Bruni sobre uma Idade Média fanática e retrógrada, todo aquele imaginário nobre que tampouco estava mais perto de corresponder à verdade. Se os renascentistas e iluministas estavam errados em atribuir a todo o período o epíteto de idade das trevas - afinal sabemos hoje que se este período de obscurantismo e primitivismo existiu, ele não persistiu para além da renascença carolíngea no séc. VIII - os românticos tampouco estavam certos quando idealizavam uma época repleta de enigmas e nobres cavaleiros e donzelas virtuosas em apuros(minha versão moderna favorita são as trilhas sonoras 80's muito ridículas feitas por sintetizadores, mas há quem prefira os rpg's). A verdade é que a excessiva formalização do código de amor cortês e da conduta cavalheiresca era uma necessidade social que se elevava contra a imensa violência e brutalidade da vida: a ética cavalheiresca, tão associada à virtudes elevadas, foi também a responsável pela maioria dos erros militares, e ao lado do ideal espiritual do amor cortês aristocrático a libertinagem corria solta nas classes superiores.

Foi preciso que historiadores do séc. XX como Huizinga, Henry Moss e Richard Southern (se alguém pensou em Jacques Le Goff eu digo que ele é muito meia pataca e só vai aparecer neste blog dentro destes parênteses) dessem finalmente a César o que é de César. Com Huizinga, em seu “Outono da Idade Média”, observamos que a Renascença entendida comumente como uma ‘emancipação’ das influências medievais e retorno à idade clássica não foi um movimento generalizado, visto que a tradição intelectual medieva nos países do norte se estendeu ainda durante muito tempo. Com Moss ficamos sabendo que a passagem da idade clássica para à idade das trevas representa menos uma queda do que uma lenta transição do glorioso mundo romano para um tipo diferente de sociedade européia. Ajuda a desfazer alguns mal-entendidos, como a crença de que toda a economia da Idade Média antiga recrudesceu a um grau meras trocas primitivas: isso de fato aconteceu, mas somente em algumas comunidades, pois o sistema monetário continuou a ser amplamente utilizado durante esta época. Southern por sua vez, mostra como a Renascença foi secundária quando se compara com as descobertas feitas durante a Idade Média no campo das artes, filosofia, teologia, direito, economia etc.

Engraçado que foram necessários 3 séculos até que uma Revolução Francesa desnudasse os equívocos em que tinha submergido o fetiche pela razão contra a fé. A partir daí o ponto de auge daquela visão de história como um U invertido passou a corresponder à idade clássica e à idade média, sendo a renascença e o iluminismo relegados ao momento da curva que corresponde ao início do declínio da civilização. Aí temos um Novalis já no final do séc. XVIII e seu catolicismo romântico, que atribuía à Idade Moderna e secularizada a culpa pela divisão e irreligiosidade, e via a Idade Média como o paraíso perdido da vida mística e da unidade espiritual – cujos ecos da mesma sorte de lamento encontramos no vitoriano Ruskin, e mais adiante em Eliot, Chesterton e Pound (que rivalizam com a corrente progressista de viés evolucionista e marxista, herdeiras no final das contas de uma certa nostalgia iluminista).

Por mais que se reconheça alguns dos equívocos desta inclinação romântica de enxergar no passado o ‘gist’ faltante da receita moderna, podemos dizer ao menos que sua reivindicação se baseava numa exigência cultural de alto nível e num anseio de preenchimento espiritual que hoje em dia parecem não mais fazer falta. E se a mediocridade da própria época tende a lançar as suas mais nobres almas ao anacronismo, hoje em dia é altamente recomendado que se desconfie daqueles que são muito fãs de seu próprio tempo.

12 brado(s):

Anônimo disse...

Eu sempre fui contrária a quem chama a Idade Média de idade das trevas. Ao ter de desenvolver um trabalho sobre trovadorismo na universidade, vi o quanto foram produzidas coisas muito boas nessa época, vide as cantigas de D.Dinis e outros, por exemplo, sem falar no Tratado do Amor Cortês, de André Capelão.
Abraços.
Carla Cristina

Giuliano Quase disse...

como sempre, marretando...

evelyn, você já escreveu sobre a ascensão do romance, do watt?

Odorico Leal disse...

Outro bom livro sobre o tema é "Literatura Européia e Idade Média Latina", do Curtius, um calhamaço esmiuiçando as linhagens de tropos que percorrem a tradição ocidental, desde a antiguidade até a modernidade (mas parando em Goethe).

Como vai, minha flor? Saudade de falar com você. Vem visitar BH! Moro num apartamento agora, então vc tem onde ficar. Vem?

Beijo,

Jorge Nobre disse...

É bom ler sobre história sem marxismo.

Mas eu devo citar o caso de Shakespeare, que fez Romeu e Julieta se amarem (e se matarem) em Verona. Ele me parece um produto da renascença e, considerando apenas Shakespeare, não se pode dizer que a Idade Média superou a renascença no campo das artes.

Ruy Vasconcelos disse...

uau! quer um sorvete de cajá?

Anônimo disse...

Ei, Evelyn, saudades de seus escritos!
Abração!
Carla

Ruy Vasconcelos disse...

o que houve, v. ñ posta mais? que coisa! bem no momento em q. comecei a ler seu blogue, v. desistiu dele. é, sempre tive um senso de 'timing' meio defasado, mesmo. fazer o quê.

Anônimo disse...

Evelyn, você está em outro blog?
Carla

Marcelo disse...

Faço minha a pergunta da Carla.

Anônimo disse...

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