Há um certo charme nestas visões decadentistas que costumam enxergar a história dos povos como um U invertido, sendo a época atual sempre identificada com algum momento deste ciclo final de queda (e agora me ocorre Spengler, e sua idéia sobre as civilizações serem organismos que crescem, chegam ao auge e decaem, e que via aquele início do séc XX como o momento de decandência de uma civilização cujo auge se dera durante a aristocracia prussiana, tipo um hegelianismo invertido).
A tendência é lamentar o advento dos novos tempos e aspirar ao retorno de um hipotético ‘auge’ precedente, como fizeram os românticos, por exemplo, ao contrastarem à idéia mantida desde os tempos de Leonardo Bruni sobre uma Idade Média fanática e retrógrada, todo aquele imaginário nobre que tampouco estava mais perto de corresponder à verdade. Se os renascentistas e iluministas estavam errados em atribuir a todo o período o epíteto de idade das trevas - afinal sabemos hoje que se este período de obscurantismo e primitivismo existiu, ele não persistiu para além da renascença carolíngea no séc. VIII - os românticos tampouco estavam certos quando idealizavam uma época repleta de enigmas e nobres cavaleiros e donzelas virtuosas em apuros(minha versão moderna favorita são as trilhas sonoras 80's muito ridículas feitas por sintetizadores, mas há quem prefira os rpg's). A verdade é que a excessiva formalização do código de amor cortês e da conduta cavalheiresca era uma necessidade social que se elevava contra a imensa violência e brutalidade da vida: a ética cavalheiresca, tão associada à virtudes elevadas, foi também a responsável pela maioria dos erros militares, e ao lado do ideal espiritual do amor cortês aristocrático a libertinagem corria solta nas classes superiores.
Foi preciso que historiadores do séc. XX como Huizinga, Henry Moss e Richard Southern (se alguém pensou em Jacques Le Goff eu digo que ele é muito meia pataca e só vai aparecer neste blog dentro destes parênteses) dessem finalmente a César o que é de César. Com Huizinga, em seu “Outono da Idade Média”, observamos que a Renascença entendida comumente como uma ‘emancipação’ das influências medievais e retorno à idade clássica não foi um movimento generalizado, visto que a tradição intelectual medieva nos países do norte se estendeu ainda durante muito tempo. Com Moss ficamos sabendo que a passagem da idade clássica para à idade das trevas representa menos uma queda do que uma lenta transição do glorioso mundo romano para um tipo diferente de sociedade européia. Ajuda a desfazer alguns mal-entendidos, como a crença de que toda a economia da Idade Média antiga recrudesceu a um grau meras trocas primitivas: isso de fato aconteceu, mas somente em algumas comunidades, pois o sistema monetário continuou a ser amplamente utilizado durante esta época. Southern por sua vez, mostra como a Renascença foi secundária quando se compara com as descobertas feitas durante a Idade Média no campo das artes, filosofia, teologia, direito, economia etc.
Engraçado que foram necessários 3 séculos até que uma Revolução Francesa desnudasse os equívocos em que tinha submergido o fetiche pela razão contra a fé. A partir daí o ponto de auge daquela visão de história como um U invertido passou a corresponder à idade clássica e à idade média, sendo a renascença e o iluminismo relegados ao momento da curva que corresponde ao início do declínio da civilização. Aí temos um Novalis já no final do séc. XVIII e seu catolicismo romântico, que atribuía à Idade Moderna e secularizada a culpa pela divisão e irreligiosidade, e via a Idade Média como o paraíso perdido da vida mística e da unidade espiritual – cujos ecos da mesma sorte de lamento encontramos no vitoriano Ruskin, e mais adiante em Eliot, Chesterton e Pound (que rivalizam com a corrente progressista de viés evolucionista e marxista, herdeiras no final das contas de uma certa nostalgia iluminista).
Por mais que se reconheça alguns dos equívocos desta inclinação romântica de enxergar no passado o ‘gist’ faltante da receita moderna, podemos dizer ao menos que sua reivindicação se baseava numa exigência cultural de alto nível e num anseio de preenchimento espiritual que hoje em dia parecem não mais fazer falta. E se a mediocridade da própria época tende a lançar as suas mais nobres almas ao anacronismo, hoje em dia é altamente recomendado que se desconfie daqueles que são muito fãs de seu próprio tempo.
Foi preciso que historiadores do séc. XX como Huizinga, Henry Moss e Richard Southern (se alguém pensou em Jacques Le Goff eu digo que ele é muito meia pataca e só vai aparecer neste blog dentro destes parênteses) dessem finalmente a César o que é de César. Com Huizinga, em seu “Outono da Idade Média”, observamos que a Renascença entendida comumente como uma ‘emancipação’ das influências medievais e retorno à idade clássica não foi um movimento generalizado, visto que a tradição intelectual medieva nos países do norte se estendeu ainda durante muito tempo. Com Moss ficamos sabendo que a passagem da idade clássica para à idade das trevas representa menos uma queda do que uma lenta transição do glorioso mundo romano para um tipo diferente de sociedade européia. Ajuda a desfazer alguns mal-entendidos, como a crença de que toda a economia da Idade Média antiga recrudesceu a um grau meras trocas primitivas: isso de fato aconteceu, mas somente em algumas comunidades, pois o sistema monetário continuou a ser amplamente utilizado durante esta época. Southern por sua vez, mostra como a Renascença foi secundária quando se compara com as descobertas feitas durante a Idade Média no campo das artes, filosofia, teologia, direito, economia etc.
Engraçado que foram necessários 3 séculos até que uma Revolução Francesa desnudasse os equívocos em que tinha submergido o fetiche pela razão contra a fé. A partir daí o ponto de auge daquela visão de história como um U invertido passou a corresponder à idade clássica e à idade média, sendo a renascença e o iluminismo relegados ao momento da curva que corresponde ao início do declínio da civilização. Aí temos um Novalis já no final do séc. XVIII e seu catolicismo romântico, que atribuía à Idade Moderna e secularizada a culpa pela divisão e irreligiosidade, e via a Idade Média como o paraíso perdido da vida mística e da unidade espiritual – cujos ecos da mesma sorte de lamento encontramos no vitoriano Ruskin, e mais adiante em Eliot, Chesterton e Pound (que rivalizam com a corrente progressista de viés evolucionista e marxista, herdeiras no final das contas de uma certa nostalgia iluminista).
Por mais que se reconheça alguns dos equívocos desta inclinação romântica de enxergar no passado o ‘gist’ faltante da receita moderna, podemos dizer ao menos que sua reivindicação se baseava numa exigência cultural de alto nível e num anseio de preenchimento espiritual que hoje em dia parecem não mais fazer falta. E se a mediocridade da própria época tende a lançar as suas mais nobres almas ao anacronismo, hoje em dia é altamente recomendado que se desconfie daqueles que são muito fãs de seu próprio tempo.