"Certa manhã, enquanto eu contemplava Marina do terraço, as suas águas pareceram-me mais profundas e brilhantes, como se eu, pela primeira vez, as examinasse com um espírito desanuviado. No mesmo instante, percebi de modo quase doloroso que a palavra se desprendia dos fenômenos, assim como se rompe a corda do arco que se distendeu em demasia. Eu via um pedacinho do véu-de-íris deste mundo e, dessa hora em diante, a minha língua não me prestava mais o serviço costumeiro. Eu vivenciava, porém, um novo despertar. Assim como as crianças que tateiam com as mãos quando a luz de dentro de seus olhos se volta para o exterior, eu procurava palavras e imagens a fim de apreender das coisas o brilho novo que me cegava. Eu jamais imaginara que a fala pudesse causar essa tortura e, contudo, não almejava retornar a uma existência ingênua. Quando imaginamos a possibilidade de um dia voar, o salto desajeitado é mais precioso para nós que o caminho previamente traçado."
Ernst Jünger