Foi preciso que historiadores do séc. XX como Huizinga, Henry Moss e Richard Southern (se alguém pensou em Jacques Le Goff eu digo que ele é muito meia pataca e só vai aparecer neste blog dentro destes parênteses) dessem finalmente a César o que é de César. Com Huizinga, em seu “Outono da Idade Média”, observamos que a Renascença entendida comumente como uma ‘emancipação’ das influências medievais e retorno à idade clássica não foi um movimento generalizado, visto que a tradição intelectual medieva nos países do norte se estendeu ainda durante muito tempo. Com Moss ficamos sabendo que a passagem da idade clássica para à idade das trevas representa menos uma queda do que uma lenta transição do glorioso mundo romano para um tipo diferente de sociedade européia. Ajuda a desfazer alguns mal-entendidos, como a crença de que toda a economia da Idade Média antiga recrudesceu a um grau meras trocas primitivas: isso de fato aconteceu, mas somente em algumas comunidades, pois o sistema monetário continuou a ser amplamente utilizado durante esta época. Southern por sua vez, mostra como a Renascença foi secundária quando se compara com as descobertas feitas durante a Idade Média no campo das artes, filosofia, teologia, direito, economia etc.
Engraçado que foram necessários 3 séculos até que uma Revolução Francesa desnudasse os equívocos em que tinha submergido o fetiche pela razão contra a fé. A partir daí o ponto de auge daquela visão de história como um U invertido passou a corresponder à idade clássica e à idade média, sendo a renascença e o iluminismo relegados ao momento da curva que corresponde ao início do declínio da civilização. Aí temos um Novalis já no final do séc. XVIII e seu catolicismo romântico, que atribuía à Idade Moderna e secularizada a culpa pela divisão e irreligiosidade, e via a Idade Média como o paraíso perdido da vida mística e da unidade espiritual – cujos ecos da mesma sorte de lamento encontramos no vitoriano Ruskin, e mais adiante em Eliot, Chesterton e Pound (que rivalizam com a corrente progressista de viés evolucionista e marxista, herdeiras no final das contas de uma certa nostalgia iluminista).
Por mais que se reconheça alguns dos equívocos desta inclinação romântica de enxergar no passado o ‘gist’ faltante da receita moderna, podemos dizer ao menos que sua reivindicação se baseava numa exigência cultural de alto nível e num anseio de preenchimento espiritual que hoje em dia parecem não mais fazer falta. E se a mediocridade da própria época tende a lançar as suas mais nobres almas ao anacronismo, hoje em dia é altamente recomendado que se desconfie daqueles que são muito fãs de seu próprio tempo.

