Domingo, Janeiro 02, 2011

"Certa manhã, enquanto eu contemplava Marina do terraço, as suas águas pareceram-me mais profundas e brilhantes, como se eu, pela primeira vez, as examinasse com um espírito desanuviado. No mesmo instante, percebi de modo quase doloroso que a palavra se desprendia dos fenômenos, assim como se rompe a corda do arco que se distendeu em demasia. Eu via um pedacinho do véu-de-íris deste mundo e, dessa hora em diante, a minha língua não me prestava mais o serviço costumeiro. Eu vivenciava, porém, um novo despertar. Assim como as crianças que tateiam com as mãos quando a luz de dentro de seus olhos se volta para o exterior, eu procurava palavras e imagens a fim de apreender das coisas o brilho novo que me cegava. Eu jamais imaginara que a fala pudesse causar essa tortura e, contudo, não almejava retornar a uma existência ingênua. Quando imaginamos a possibilidade de um dia voar, o salto desajeitado é mais precioso para nós que o caminho previamente traçado."
Ernst Jünger

Sábado, Novembro 27, 2010

"A man so pressed into behaviourism by awkward circumstances that he reacts like matter, is dead. A man so completely self-centred that he is constantly behaving as the sovereign Ego, runs insane."

Eugen Rosenstock-Huessy


O esforço da consciência não equivale, como querem os pseudo-gurus budistas, a um inchaço incessante do próprio ego. É justamente este esforço de superação do trivial que permite, entre um repouso e outro, desfrutar de uma paz de espírito mais genuína, pois podemos evocar aqueles conteúdos imaginativos adquiridos em momentos em que nos sentíramos em posse de algo mais elevado. O mal consiste em desfazer-se do centro ao tentar amplia-lo até os limites da própria existência, seja pela desistência ociosa da exigência imperativa que nos faz a vida pela consciência, seja pela fixação frenética e rigorosa pela mesma exigência. O tédio e a beatitude assemelham-se por nos colocarem num estado em que nosso eu é aniquilado pela total inserção à totalidade. Ambos são estados temporários, sob o risco de tornarem-se, respectivamente, acídia crônica e delírio místico caso não ocorra um providencial retorno a nós mesmos. De um lado, a desistência da própria consciência, a rejeição do ego, que paradoxalmente só faz por enaltecê-lo de maneira doentia, pois pressupõe, erroneamente, a superação de nosso apego a um centro quando na realidade só se está permutando uma ficção ególatra por outra, mais sombria. De outro lado, o afã dialético pela superação dos contrários, a eliminação cusiana da periferia que pretende nos deixar órfãos de nosso próprio centro, aniquilando a vida da consciência.

A existência tanto anseia por sua própria afirmação em seu impulso paradoxal em direção à anulação beatífica quanto tende a sucumbir ao cansaço destas tentativas. Mas assim que atinge o limiar, deve retornar, assombrada, a si mesma, voltando a fechar-se em seu círculo eterno, porém cada vez mais ciente de que, como diz Chesterton, 'a frenética energia das coisas divinas a derrubaria como uma farsa de bêbados'.

Quarta-feira, Outubro 13, 2010

Tradução: Heinrich Heine

Mir träumte wieder der alte Traum:
Es war eine Nacht im Maie,
Wir saßen unter dem Lindenbaum,
Und schwuren uns ewige Treue.

Das war ein Schwören und Schwören aufs neu,
Ein Kichern, ein Kosen, ein Küssen;
Daß ich gedenk des Schwures sei,
Hast du in die Hand mich gebissen.

O Liebchen mit den Äuglein klar!
O Liebchen schön und bissig!
Das Schwören in der Ordnung war,
Das Beißen war überflüssig.


O velho sonho novamente me acomete:
Em uma tarde de primavera
Nós juramos, sob a tílias e o poente
Que nosso amor eterno era

Mais e mais renovamos nossas juras
Entre beijos, risos e deleites
Com uma mordida em minha mão tu asseguras
Que da minha jura eu não desleixe

Oh, minha amada de olhos ternos!
Oh minha mordaz e bela amada!
Deveras pertinente o juramento
Inútil, no entanto, a dentada.

Quinta-feira, Outubro 07, 2010

The life and death of Colonel Blimp


Há um momento neste grande filme da dupla Powell e Pressburguer em que o general alemão diz ao seu amigo Clive Candy que o empecilho de suas operações militares residia no fato de que ele havia sido durante toda vida "educado para ser um sporstman na guerra e na paz." E a beleza toda do filme reside justamente no contraste - ilustrado nesta cena de reencontro entre os generais cuja amizade resistira a duas guerras - entre a nobre naivité do general inglês e o trágico realismo de seu amigo alemão. O primeiro imaginava o mundo como um gigantesco salão de chá, como se a guerra se tratasse de um símile da resolução de conflito travada em um elegante duelo entre cavalheiros, enquanto o segundo exergava a guerra em seu fundamento absurdo e diabólico, em que os cavalheiros deveriam tornar-se igualmente diabólicos caso quisessem vencer o inimigo.

Como Dom Quixote e Sancho Pança, a ilusão nobre de um e o realismo árido de outro experimentam uma espécie de compensação mútua. Assim como Dom Quixote desejava viver os romances de cavalaria dentro de um mundo insípido, Clive Candy buscava aplicar a etiqueta cavalheiresca de uma belle epoche em tempos bárbaros, naivité que parece ser vista com admiração pelo amigo realista como um esforço supremo e derradeiro da nobreza aristocrática de espírito em se conservar incólume diante de um mundo que se degenera.

Quinta-feira, Maio 22, 2008

men's curiosity searches past and future and clings so that dimension

Há um certo charme nestas visões decadentistas que costumam enxergar a história dos povos como um U invertido, sendo a época atual sempre identificada com algum momento deste ciclo final de queda (e agora me ocorre Spengler, e sua idéia sobre as civilizações serem organismos que crescem, chegam ao auge e decaem, e que via aquele início do séc XX como o momento de decandência de uma civilização cujo auge se dera durante a aristocracia prussiana, tipo um hegelianismo invertido).
A tendência é lamentar o advento dos novos tempos e aspirar ao retorno de um hipotético ‘auge’ precedente, como fizeram os românticos, por exemplo, ao contrastarem à idéia mantida desde os tempos de Leonardo Bruni sobre uma Idade Média fanática e retrógrada, todo aquele imaginário nobre que tampouco estava mais perto de corresponder à verdade. Se os renascentistas e iluministas estavam errados em atribuir a todo o período o epíteto de idade das trevas - afinal sabemos hoje que se este período de obscurantismo e primitivismo existiu, ele não persistiu para além da renascença carolíngea no séc. VIII - os românticos tampouco estavam certos quando idealizavam uma época repleta de enigmas e nobres cavaleiros e donzelas virtuosas em apuros(minha versão moderna favorita são as trilhas sonoras 80's muito ridículas feitas por sintetizadores, mas há quem prefira os rpg's). A verdade é que a excessiva formalização do código de amor cortês e da conduta cavalheiresca era uma necessidade social que se elevava contra a imensa violência e brutalidade da vida: a ética cavalheiresca, tão associada à virtudes elevadas, foi também a responsável pela maioria dos erros militares, e ao lado do ideal espiritual do amor cortês aristocrático a libertinagem corria solta nas classes superiores.

Foi preciso que historiadores do séc. XX como Huizinga, Henry Moss e Richard Southern (se alguém pensou em Jacques Le Goff eu digo que ele é muito meia pataca e só vai aparecer neste blog dentro destes parênteses) dessem finalmente a César o que é de César. Com Huizinga, em seu “Outono da Idade Média”, observamos que a Renascença entendida comumente como uma ‘emancipação’ das influências medievais e retorno à idade clássica não foi um movimento generalizado, visto que a tradição intelectual medieva nos países do norte se estendeu ainda durante muito tempo. Com Moss ficamos sabendo que a passagem da idade clássica para à idade das trevas representa menos uma queda do que uma lenta transição do glorioso mundo romano para um tipo diferente de sociedade européia. Ajuda a desfazer alguns mal-entendidos, como a crença de que toda a economia da Idade Média antiga recrudesceu a um grau meras trocas primitivas: isso de fato aconteceu, mas somente em algumas comunidades, pois o sistema monetário continuou a ser amplamente utilizado durante esta época. Southern por sua vez, mostra como a Renascença foi secundária quando se compara com as descobertas feitas durante a Idade Média no campo das artes, filosofia, teologia, direito, economia etc.

Engraçado que foram necessários 3 séculos até que uma Revolução Francesa desnudasse os equívocos em que tinha submergido o fetiche pela razão contra a fé. A partir daí o ponto de auge daquela visão de história como um U invertido passou a corresponder à idade clássica e à idade média, sendo a renascença e o iluminismo relegados ao momento da curva que corresponde ao início do declínio da civilização. Aí temos um Novalis já no final do séc. XVIII e seu catolicismo romântico, que atribuía à Idade Moderna e secularizada a culpa pela divisão e irreligiosidade, e via a Idade Média como o paraíso perdido da vida mística e da unidade espiritual – cujos ecos da mesma sorte de lamento encontramos no vitoriano Ruskin, e mais adiante em Eliot, Chesterton e Pound (que rivalizam com a corrente progressista de viés evolucionista e marxista, herdeiras no final das contas de uma certa nostalgia iluminista).

Por mais que se reconheça alguns dos equívocos desta inclinação romântica de enxergar no passado o ‘gist’ faltante da receita moderna, podemos dizer ao menos que sua reivindicação se baseava numa exigência cultural de alto nível e num anseio de preenchimento espiritual que hoje em dia parecem não mais fazer falta. E se a mediocridade da própria época tende a lançar as suas mais nobres almas ao anacronismo, hoje em dia é altamente recomendado que se desconfie daqueles que são muito fãs de seu próprio tempo.

Sexta-feira, Abril 18, 2008

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Sem tempo nem disposição para colocar coisas novas aqui, eu vou fazer algo muito podre, que consiste em postar um exercício que eu fiz para uma matéria de estudos da tradução na universidade. Eis:

Já foi falado que „quando algo é dito é porque já deixou de existir no coração“. O que quer dizer que o ato de dizer aniquila o potencial inesgotável do não-dito, reduzindo-o à uma forma de existência possível. Afinal, é condição de toda existência ser em si mesma uma redução, pois os recursos humanos que levam algo à existir são sempre imperfeitos. Podemos dizer de certa forma, que o dito limitado é sempre um produto do não dito inesgotável, assim como o rito é produto do mistério, e que, se o que hoje é rito outrora foi mistério, assim também o que é dito já foi silêncio. E o que comporta este silêncio, este mistério? Serão eles a medida invisível que adeja acima de nós fora do tempo, cuja atualização se dá sempre de maneira precária, cuja descoberta é sempre parcial? Ou seria uma ilusão auto induzida – uma estratégia inconsciente de sobrevivência - na qual o sujeito inventa Ideais a si mesmo a fim de poder crer que existe um mundo mais amplo além daquele que enxerga? Oras, a relação que comporta as representações humanas com o não dito é a mesma que comporta o ordinário com o transcendente. E assim como não há vida sem o ordinário – pois tudo o que o homem conhece lhe é dado através da „tradução“ do mistério em representações tangíveis – também não há vida sem o transcendente, pois este é uma espécie de recipiente eterno de onde a „existência das coisas“ procede. E quando eu digo que todo o dito é imperfeito, que toda a representação é ordinária, não quero dizer que são piores que o segredo que o silêncio guarda. Pois qualquer existência ordinária, é melhor do que uma inexistência gloriosa . E a tradução, nesse sentido, é a resistência ao inefável, a redução inevitável do mistério que o silência guarda.
„Quando algo é dito é porque deixou de existir no coração“. Novamente, é possível que a primeira vez em que o homem quis expressar seu entendimento de que ele era algo distinto daquela Natureza que o cercava, tenha deixado, nesta primeira palavra, ou gesto, algo para trás. De sua existência monolítica, passou a diferenciar-se, e se a primeira palavra ou gesto traduzia a Natureza (pois que para haver uma tradução é preciso que homem e Natureza sejam duas coisas distintas e não uma só), mais tarde a própria Natureza passou a ser a tradução de algo além.
De onde tiramos o fato de que a barreira entre dois idiomas, por exemplo, não passa de uma mera sugestão de que o mundo em si mesmo é uma Tradução. E voltando à dicotomia entre aqueles inventar e descobrir: a Tradução é invenção, criação, pois o mistério de que procede jamais é auto evidente. Mas por outro lado é descobrimento, desvelamento, pois pressupõe uma autoridade anterior. E não é de espantar que inventar e descobrir significam a mesma coisa de acordo com o sentido etimológico mais antigo.

Domingo, Janeiro 27, 2008

I mock humanity because I'm cool and shallow

Ao ridículo da atitude do sujeito 'denso' que esnoba as frívolas e banais alegrias da vida está a do sujeito hedonista que ridiculariza suas dimensões mais - caso vocês me permitam - fecundas. O segundo estará correto ao dizer ao primeiro que o sorriso de uma bela mulher vale muito mais do que 10 anos de filosofia alemã, porém o primeiro terá a seu favor o argumento de que seus 10 anos de filosofia alemã podem até ajudar a cativar uma bela mulher. Por mais ridícula que seja a grandiloqüência ingênua, mais ridículo ainda é o receio constante de que alguém perceba que em seu caráter reside uma dimensão que vá além da capacidade de fazer amenos e divertidos comentários sobre coisas simples e elegantes. O espertalhão super-ultra cool bem resolvido, que torce o nariz pra quem diz que lê Hegel, dizendo que pessoas inteligentes de verdade não lêem Hegel, é o mesmo cara que aprecia secretamente um arroubo sentimental excessivo lido numa elegia de Rilke, mas que publicamente apenas admite sua admiração pelo witticism britânico ( e se alguém perguntar se você está chorando você diz que foi um cisco).

É engraçado como existe uma espécie de pacto subjacente com relação à restrição do uso de termos como, por exemplo, "condição humana", "vida interior" ou "sabedoria", os quais podem parecer deslocados dentro da sensibilidade moderna, que os acusa de indicar nada mais do que uma grandeza algo caricata, um sopro retardatário do ennui ou mal du siecle. Um escritor inteligente e ponderado, que tenha que enfrentar fatalmente alguns destes termos, talvez sinta a necessidade de fazer uso de certa justificativa, ou solução criativa a fim de não comprometer a eficácia de sua argumentação, como fez Eliot num certo ponto de seu ensaio sobre Goethe: "Receio que a palavra que estou prestes a pronunciar venha a surpreender muitos ouvidos como um anticlímax a esse exórdio(...)". Quando um certo tipo de linguagem começa a cair em descrédito, é sinal de que o sentido o qual ela designava com perfeição começa a perder sua significação. No caso da reação negativa à grandiloqüência dita caricata, talvez nem seja o caso de que tais palavras tenham perdido seu sentido, mas apenas assumido uma forma mais eufemística, adaptada à afetada sensibilidade moderna e sua despropositada suspeita do 'profundo'. Não se pode esquecer que o hedonismo sofisticado só é logrado por aqueles que possuem certo talento para o drama, e que a irreverência na maioria das vezes disfarça uma tocante tragédia pessoal, a qual, por inteligência e cordialidade se transforma, em público, em gentil espirituosidade.

E parece ser uma regra universal o fato de que quanto mais você sofistica o seu gosto, mais cordial você se torna por fora, e mais intolerante por dentro.

Terça-feira, Janeiro 01, 2008

a melhor frase sobre os galeses

"Os galeses são o único povo no mundo que não produziu nenhuma manifestação artística gráfica ou plástica, nem arquitetura, nem teatro. Eles só cantam e sopram instrumentos banhados em prata".

Evelyn Waugh em Decline and Fall.

mais da série "a melhor frase sobre..."

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

notas sobre a inteligência feminina no cinema

O cinema de fato reflete a crise da inteligência feminina pós-anos 60. Já tínhamos o estereótipo da mulher de personalidade forte, como as adoráveis jornalistas interpretadas por Rosalind Russel e Jean Arthur em His Girl Friday e Mr. Smith goes to Washington, respectivamente, ou a espiã Greta Garbo em Ninotchka: mulheres capazes de fazer tudo o que um homem fazia, porém sem perder aquela graça e aquela auto-consciência discreta da superioridade que seu "eterno feminino" as conferia. A moderna auto-afirmação feminina através da realização profissional acabou com as incríveis personagens aristocráticas mimadas, imortalizadas por Claudette Colbert (It happenned on that night) e Katherine Hepburn (Holyday, Bringing up Baby), e com as adoráveis e clever-witted donas-de-casa de Myrna Loy (O melhor ano de nossas vidas, Mr. Blandings Builds His Dream House) e Greer Garson (Mrs. Miniver). Sem falar que o complexo carreirista, aliado ao sexismo da liberação (época em que as pin-ups em salto alto dos old advertisements de eletrodomésticos foram substituídas pelas "progressistas" de sandálias) acabaram gerando aberrações como a energúmena Jane Fonda, posando para fotos em tanques de guerra, e que tem como correspondente moderna a igualmente chata Angelina Jolie, posando para fotos com africanos famintos e camisetinha da ONU. A inteligência feminina parece ter sofrido um colapso irremediável, e nossas "workings girls", bissexuais, e femmes fatales jamais serão como as de antigamente.

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

É possível que a afirmação cristã de que ao se perder a vida se a estará salvando, não esteja se referindo à dicotomia entre a mortalidade e vida eterna; é possível, talvez, que ela esteja omitindo aquém de seu sentido prestigiado, algum lamento anescatológico, céptico, a respeito da eternidade. Pois não é a negação desta vida que serve aos propósitos da eternidade, mas é a afirmação da eternidade que faz perseverar o apego à vida. A projeção de imortalidade, ou vida eterna, o "salto na fé" ou "existência autêntica", por apascentarem os imperativos persistentes da mortalidade real, continua a ser mero expediente para exaltar esta mesma existência mortal. Pois o último desdobramento da máxima "esquecer de si mesmo" só faz nos levar a vivenciarmos nós mesmos mais intensamente, mais egoticamente. Depois de perder a vida, a eternidade; depois de perder a eternidade, a vida.

Pode ser que a fé que teve que se expandir até os limites do Universo a fim de descobrir sua própria nulidade, mesmo quando deixa de ser, jamais consiga retraçar seu caminho de volta; é da natureza da fé, mesmo em sua forma esvaziada, a impossibilidade de se desligar de seu molde original - ela é a forma mais viva e imperativa de esquecimento, uma perda eternamente presente. Tal molde não abandonará a consciência, e como seu antigo esforço não pode ser anulado, recusa-se a não ser preenchido por algo, de maneira que o antigo conteúdo da fé é substituído pelo conteúdo de uma esperança utópica num futuro além do tempo, ou numa sensação nostálgica de um passado desde sempre esquecido.

A fé no Todo, portanto, a fim de não ser desperdiçada, é transmutada numa gigantesca poesia do eu, onde a suspension of disbelief coleridgiana se torna não apenas um pacto ficcional, mas um técnica para a própria existência. Só é nobre aquele buscou a fé de forma sincera, e do mesmo modo, com a mesma sinceridade, perdeu-a. Pois não seria a fé algo mais nobre que a razão, e a fé perdida ainda mais nobre que a fé positiva? "Is there no change of death in paradise?" diz um verso de Stevens, cuja poesia pode ser lida como uma espécie de soteriologia prática, esse Wallace Stevens que converteu-se pouco antes de sua morte, decerto porque viveu como se imanentizasse o eterno no efêmero, e quando soube que morreria, quis reificar o efêmero no eterno. E ele tem razão, pois conforme o verso, se houver uma eternidade, esta não deverá será muito diferente da vida.

Terça-feira, Outubro 16, 2007

As personagens da Doris Lessing falam em Klingon?

O Sérgio Rodrigues que me perdoe. Mas depois de ler a citação abaixo, eu acho muito, mas muito difícil que um ser humano me convença a ler Doris Lessing (a não ser que ele tente me comprar com uma caixa chocolates belgas ou suiços, mas aí também já é covardia. Por uma caixa de chocolates suiços eu seria até capaz de gostar de Al Gore):

(criei)"um mundo novo para mim mesma, um reino onde os mitos e lendas dos planetas deixaram de ser apenas manifestações de indivíduos sozinhos, onde sobrevêm os aspectos das rivalidades e das interações do Império de Canopus com os outros impérios galácticos, Sirius, e seu inimigo, o império Puttoria, com seu planeta crimoso, Shammat."

Colonização intergaláctica? Interações do Império Canopus com Siriys, Puttoria e Shammat?
Jee! This is kinda creepy, right?

Aí vem o Sebastião: "É, Evelyn, você e essa mania que você tem de recortar citações fora do contexto e achar que pode ficar julgando ( "ficar julgando"! é, o sebastião está naquelas comunidades do orkut "eu odeio gerundismos" e tal, mas as vezes ele acha que usá-los dá uma certa ênfase no sermão) a obra inteira de um autor com base num preconceitozinho premeditado ( quando o emissor em questão faz uso do diminutivo eu sei que consegui irritá-lo de alguma forma - o uso do diminutivo é uma forma de fazer parecer que a atitude da qual você está sendo acusado é uma coisa muito mesquinha, muito ridícula. Tipo a mulher que observa o marido polir a sua coleção de tampinhas, ou reorganizar sua coleção barata de canecos de chopp comprados em oktoberfests na época em que ainda não tinha se casado - e nesse caso, reorganizá-los é uma forma de recordar esta fase da vida em que ele ainda era feliz - 'ah, você e seus habitozinhos, você e suas coleçõezinhas'. E este 'zinho', eu digo, é capaz de ferir um coração sensível.)

E daí eu respondo: Veja só Sebastião, se você não pudesse conhecer o todo pelas partes, você jamais conheceria coisa alguma. Eu sou daquele tipo de gente que se estiver jantando com um sujeito com a aparência de um Raul Bova, o senso moral de um Emerson, o witticism de um Chesterton e a inteligência de um Leibniz, e este sujeito soltar meio que acidentalmente um arroto disfarçado na mesa, este sujeito, oras, acabou de arruinar suas chances comigo.

Sexta-feira, Outubro 12, 2007

Der Panther

A pantera

No Jardin des Plantes, Paris

Fitando as grades seu olhar arrefece
e fora isso a nada mais se atém.
A ela: como se mil grades houvesse,
mil grades e nenhum mundo além.

A leve marcha de seu passo altivo,
o qual se move em giros que decrescem
Qual dança de força em torno a um alvo
em que um anseio, nobre, se entorpece

Às vezes se descerra o véu, silente,
de sua pupila – onde uma imagem irrompe,
e através dos membros em tensão inerte
no coração, se interrompe.

Apesar de já existirem algumas tantas competentes traduções deste famoso poema de Rilke, resolvi assim mesmo humilhar-me em público e mostrar a minha. Para quem quiser conferir um trabalho bem feito, favor, leia a tradução do Augusto, na minha opinião a melhor(porque eu não sou idiota de postar ela aqui só para vocês ficarem comparando) . Por sinal, por mais que eu goste de Bruno Tolentino, sempre achei injusto o fato de ele não fazer a devida ressalva ao talento de Augusto de Campos como tradutor, a despeito de quais possam as patetices deste irmão campos em outros ..er..campos.

O poema faz parte de uma coletânea de Rilke entitulada "Die Neue Gedichte" (Novos Poemas -- que Carpeaux admite ser a sua obra favorita, superando as "Elegias") uma espécie de livro de aprendizado onde o poeta coloca em prática as lições de seu mestre Rodin, de quem foi secretário por um certo período. Hoje em dia, é impossível não perceber algo de caricato no temperamento do homem Rilke: o estigma de 'poeta seráfico', o sentimentalismo exagerado das primeiras obras, a incapacidade de exercer atividades burocráticas, e toda esta atmosfera que se criou em torno da sua biografia, que antes me convence de que estamos lidando com um bebê chorão do que com um, oh, 'trágico expatriado", sendo que esta veneração incondicional do poeta por seu mestre Rodin, soa apenas como mais uma de suas futilidades poéticas. Seja como for, o bebê chorão Rilke é dos melhores poetas do século passado, e 'A pantera', dentre todos os poemas do mundo, é um dos que eu mais gosto.

Como se estivesse realizando a tarefa de um escultor, Rilke opta por um sistema preferencialmente imagético, dentro do qual a descrição da pantera na jaula vai se ampliando de modo que, gradativamente, esta descrição abarque também os seus estados fisiológicos, engendrando a metáfora. Transcrevo aqui um trechinho do ensaio de Eliot "a música da poesia": "há poemas nos quais somos inebriados pela música e admitimos o sentido como correto, assim como há poemas nos quais prestamos atenção ao sentido e somos envolvidos pela música sem que disse nos apercebamos". Neste aspecto, a artesania brilhante de "A pantera" enquadra-se naquele segundo tipo de poema descrito por Eliot, justamente por 'neutralizar' a forma na imagem, e naturalizar a regularidade ritmica, métrica e sonora de maneira a dar a impressão de que na verdade não foi empregada uma forma fixa ali (pentâmetro iâmico). Se quiserem ver este efeito, é preciso ler o original ou uma tradução competente (a tradução do Augusto consegue com muito sucesso este efeito, mesmo que tenha que metaforizar algumas partes que no orginal são mais definidas. Na minha versão, ao contrário, a forma é mais pronunciada). De fato, "somos envolvidos pelo música sem o perceber", e ao final do poema temos o sentido claro diante de nós: a idéia do confinamento do homem à si próprio, e a visão efêmera do transcendente que o assalta de tempos em tempos, entre cujos intervalos é relegado à tensão decorrente de sua própria limitação. A perfeita harmonia entre forma e conteúdo pode ser ilustrada no último verso, que é o único a não obedecer o padrão métrico do restante do poema; suprime três pés, para coincidir com o momento em que a 'imagem deixa de existir no coração". Um dos aspectos presentes na maioria das traduções que eu li, modifica a perspectiva dos primeiros versos para a voz ativa, pois no orginial alemão "..ist vom Vorübergehn der Stäbe", não quer dizer "a pantera olha o passar das grades", e sim que "as grades passam pelo seu olhar", como se fossem elas que se movimentassem, e não a pantera - reforçando a idéia da passividade. (este recurso me lembra um comentário de Harold Bloom sobre um trecho da novela "Hadju Murad", na qual, para criar o efeito do movimento dos cossacos sobre os cavalos, Tolstoi descreve a passagem rápida das nuvens enquanto cavalgavam).
Para os que entendem alemão, aqui vocês encontram a coletânea completa.



Segunda-feira, Outubro 01, 2007

Bela plumagem em carne ruim: é o Brasil

CHAPTER XXIV.A PHILANTHROPIST UNDERTAKES TO CONVERT A MISANTHROPE, BUT DOES NOT GET BEYOND CONFUTING HIM.

"HANDS off!" cried the bachelor, involuntarily covering dejection with moroseness.

"Hands off? that sort of label won't do in our Fair. Whoever in our Fair has fine feelings loves to feel the nap of fine cloth, especially when a fine fellow wears it."

"And who of my fine-fellow species may you be? From the Brazils, ain't you? Toucan fowl. Fine feathers on foul meat."
Aqui

Embora em 1857 o "toucan" de Melville não pudesse estar se referindo ao PSDB, a ironia do autor americano quanto às nossas tão caras "belezas naturais" permanece irredutivelmente intocada e atual. Pelo visto o único jeito de ver o Brasil mencionado por um grande autor da literatura universal é sob a forma de troça.

Domingo, Setembro 16, 2007

a religião do Verbo e a pureza eliotiana frustrada

Toda filosofia pós-derrocada-das-últimas-fantasmagorias-metafísicas tenderia a estender a acepção heideggeriana "a língua é a morada do ser" para algo como "a língua é a morada, a origem e a finalidade do ser", instituindo assim a nova religião de neo-kantianos e wittgenstanianos de plantão. O principal mote destes novos fiéis, cujo tour-de-force consiste em transformar o deus do opúsculo em quintandeiro, e os major dilemmas em quimeras verbais , é a idéia de que só existe realidade dentro da linguagem, sendo qualquer inclinação para além dela considerada uma metaphysical delusion.
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A função de todo símbolo, portanto, que seria a de apontar para algo além dele próprio, se restringe a confluir para o símbolo hipersaturado da linguagem, que cria e absorve os efeitos de suas associações lógicas - uma espécie de metonímia de si mesma. O papel específico do logos parece ter sido reabsorvido pelo myhtos, transformando tudo em fabulação, e retirando a dimensão do desvelamento da realidade ao qual a linguagem se subordinava.
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A interiorização do Ser, a imanentização do eschaton, os adiamentos de significado, imantam todos de uma vez a "medida invisível" - responsável pela escalada dos graus de consciência - suprimindo-a em seu redomoinho. A insubordinação da linguagem e sua negação de que a realidade é algo que não ela própria, faz criar uma arbitrária teia verbal que joga com a própria crença de poder instaurar os mais diversos sentidos que lhe ocorra, fazendo um verdadeiro carnaval, tanto na linguagem das artes quanto da filosofia.
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Talvez o teor intelectualista da poesia de Eliot, seja resultado daquilo que ele dizia sobre a poesia não precisar ter comprometimento algum com a visão de mundo do autor, e que, para gostar de um poema, você não precisava necessariamente gostar da idéia contida no poema, isto é, a filosofia pode estar na poesia, mas como elemento estrutural, como "correlato objetivo". Concordo com reservas. É certo que a poesia não precisa ser filosofia e vice-versa, mas não porque elas se encerram em linguagens "puras", mas simplesmente porque utilizam os meios mais adequados para atingirem suas metas, o que não impede, oras, de a poesia ser sim, filosofia também, e a filosofia de estar expressa de uma forma mais poética: segundo Orígenes, é possivel atingir o mesmo gist por caminhos diferentes.
*
Todos elogiam o fraseado de Eliot, mas a verdade é que ele não seria bom se a sua poesia em algum momento não deixasse de trair sua visão de mundo, daí que "a poesia não é um modo de libertar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade. É claro, porém, que somente aqueles que possuem personalidade e emoção sabem o que significa querer escapar delas". O ensaio completo, aqui.

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