Valquirianas
Domingo, Janeiro 02, 2011
Sábado, Novembro 27, 2010
Eugen Rosenstock-Huessy
A existência tanto anseia por sua própria afirmação em seu impulso paradoxal em direção à anulação beatífica quanto tende a sucumbir ao cansaço destas tentativas. Mas assim que atinge o limiar, deve retornar, assombrada, a si mesma, voltando a fechar-se em seu círculo eterno, porém cada vez mais ciente de que, como diz Chesterton, 'a frenética energia das coisas divinas a derrubaria como uma farsa de bêbados'.
Quarta-feira, Outubro 13, 2010
Tradução: Heinrich Heine
Es war eine Nacht im Maie,
Wir saßen unter dem Lindenbaum,
Und schwuren uns ewige Treue.
Das war ein Schwören und Schwören aufs neu,
Ein Kichern, ein Kosen, ein Küssen;
Daß ich gedenk des Schwures sei,
Hast du in die Hand mich gebissen.
O Liebchen mit den Äuglein klar!
O Liebchen schön und bissig!
Das Schwören in der Ordnung war,
Das Beißen war überflüssig.
O velho sonho novamente me acomete:
Em uma tarde de primavera
Nós juramos, sob a tílias e o poente
Que nosso amor eterno era
Mais e mais renovamos nossas juras
Entre beijos, risos e deleites
Com uma mordida em minha mão tu asseguras
Que da minha jura eu não desleixe
Oh, minha amada de olhos ternos!
Oh minha mordaz e bela amada!
Deveras pertinente o juramento
Inútil, no entanto, a dentada.
Quinta-feira, Outubro 07, 2010
The life and death of Colonel Blimp

Como Dom Quixote e Sancho Pança, a ilusão nobre de um e o realismo árido de outro experimentam uma espécie de compensação mútua. Assim como Dom Quixote desejava viver os romances de cavalaria dentro de um mundo insípido, Clive Candy buscava aplicar a etiqueta cavalheiresca de uma belle epoche em tempos bárbaros, naivité que parece ser vista com admiração pelo amigo realista como um esforço supremo e derradeiro da nobreza aristocrática de espírito em se conservar incólume diante de um mundo que se degenera.
Quinta-feira, Maio 22, 2008
men's curiosity searches past and future and clings so that dimension
Foi preciso que historiadores do séc. XX como Huizinga, Henry Moss e Richard Southern (se alguém pensou em Jacques Le Goff eu digo que ele é muito meia pataca e só vai aparecer neste blog dentro destes parênteses) dessem finalmente a César o que é de César. Com Huizinga, em seu “Outono da Idade Média”, observamos que a Renascença entendida comumente como uma ‘emancipação’ das influências medievais e retorno à idade clássica não foi um movimento generalizado, visto que a tradição intelectual medieva nos países do norte se estendeu ainda durante muito tempo. Com Moss ficamos sabendo que a passagem da idade clássica para à idade das trevas representa menos uma queda do que uma lenta transição do glorioso mundo romano para um tipo diferente de sociedade européia. Ajuda a desfazer alguns mal-entendidos, como a crença de que toda a economia da Idade Média antiga recrudesceu a um grau meras trocas primitivas: isso de fato aconteceu, mas somente em algumas comunidades, pois o sistema monetário continuou a ser amplamente utilizado durante esta época. Southern por sua vez, mostra como a Renascença foi secundária quando se compara com as descobertas feitas durante a Idade Média no campo das artes, filosofia, teologia, direito, economia etc.
Engraçado que foram necessários 3 séculos até que uma Revolução Francesa desnudasse os equívocos em que tinha submergido o fetiche pela razão contra a fé. A partir daí o ponto de auge daquela visão de história como um U invertido passou a corresponder à idade clássica e à idade média, sendo a renascença e o iluminismo relegados ao momento da curva que corresponde ao início do declínio da civilização. Aí temos um Novalis já no final do séc. XVIII e seu catolicismo romântico, que atribuía à Idade Moderna e secularizada a culpa pela divisão e irreligiosidade, e via a Idade Média como o paraíso perdido da vida mística e da unidade espiritual – cujos ecos da mesma sorte de lamento encontramos no vitoriano Ruskin, e mais adiante em Eliot, Chesterton e Pound (que rivalizam com a corrente progressista de viés evolucionista e marxista, herdeiras no final das contas de uma certa nostalgia iluminista).
Por mais que se reconheça alguns dos equívocos desta inclinação romântica de enxergar no passado o ‘gist’ faltante da receita moderna, podemos dizer ao menos que sua reivindicação se baseava numa exigência cultural de alto nível e num anseio de preenchimento espiritual que hoje em dia parecem não mais fazer falta. E se a mediocridade da própria época tende a lançar as suas mais nobres almas ao anacronismo, hoje em dia é altamente recomendado que se desconfie daqueles que são muito fãs de seu próprio tempo.
Sexta-feira, Abril 18, 2008
blabwsifbdsanapjscn
De onde tiramos o fato de que a barreira entre dois idiomas, por exemplo, não passa de uma mera sugestão de que o mundo em si mesmo é uma Tradução. E voltando à dicotomia entre aqueles inventar e descobrir: a Tradução é invenção, criação, pois o mistério de que procede jamais é auto evidente. Mas por outro lado é descobrimento, desvelamento, pois pressupõe uma autoridade anterior. E não é de espantar que inventar e descobrir significam a mesma coisa de acordo com o sentido etimológico mais antigo.
Domingo, Janeiro 27, 2008
I mock humanity because I'm cool and shallow
É engraçado como existe uma espécie de pacto subjacente com relação à restrição do uso de termos como, por exemplo, "condição humana", "vida interior" ou "sabedoria", os quais podem parecer deslocados dentro da sensibilidade moderna, que os acusa de indicar nada mais do que uma grandeza algo caricata, um sopro retardatário do ennui ou mal du siecle. Um escritor inteligente e ponderado, que tenha que enfrentar fatalmente alguns destes termos, talvez sinta a necessidade de fazer uso de certa justificativa, ou solução criativa a fim de não comprometer a eficácia de sua argumentação, como fez Eliot num certo ponto de seu ensaio sobre Goethe: "Receio que a palavra que estou prestes a pronunciar venha a surpreender muitos ouvidos como um anticlímax a esse exórdio(...)". Quando um certo tipo de linguagem começa a cair em descrédito, é sinal de que o sentido o qual ela designava com perfeição começa a perder sua significação. No caso da reação negativa à grandiloqüência dita caricata, talvez nem seja o caso de que tais palavras tenham perdido seu sentido, mas apenas assumido uma forma mais eufemística, adaptada à afetada sensibilidade moderna e sua despropositada suspeita do 'profundo'. Não se pode esquecer que o hedonismo sofisticado só é logrado por aqueles que possuem certo talento para o drama, e que a irreverência na maioria das vezes disfarça uma tocante tragédia pessoal, a qual, por inteligência e cordialidade se transforma, em público, em gentil espirituosidade.
E parece ser uma regra universal o fato de que quanto mais você sofistica o seu gosto, mais cordial você se torna por fora, e mais intolerante por dentro.
Terça-feira, Janeiro 01, 2008
a melhor frase sobre os galeses
Evelyn Waugh em Decline and Fall.
mais da série "a melhor frase sobre..."
Sexta-feira, Dezembro 07, 2007
notas sobre a inteligência feminina no cinema
Quinta-feira, Dezembro 06, 2007
É possível que a afirmação cristã de que ao se perder a vida se a estará salvando, não esteja se referindo à dicotomia entre a mortalidade e vida eterna; é possível, talvez, que ela esteja omitindo aquém de seu sentido prestigiado, algum lamento anescatológico, céptico, a respeito da eternidade. Pois não é a negação desta vida que serve aos propósitos da eternidade, mas é a afirmação da eternidade que faz perseverar o apego à vida. A projeção de imortalidade, ou vida eterna, o "salto na fé" ou "existência autêntica", por apascentarem os imperativos persistentes da mortalidade real, continua a ser mero expediente para exaltar esta mesma existência mortal. Pois o último desdobramento da máxima "esquecer de si mesmo" só faz nos levar a vivenciarmos nós mesmos mais intensamente, mais egoticamente. Depois de perder a vida, a eternidade; depois de perder a eternidade, a vida.
Pode ser que a fé que teve que se expandir até os limites do Universo a fim de descobrir sua própria nulidade, mesmo quando deixa de ser, jamais consiga retraçar seu caminho de volta; é da natureza da fé, mesmo em sua forma esvaziada, a impossibilidade de se desligar de seu molde original - ela é a forma mais viva e imperativa de esquecimento, uma perda eternamente presente. Tal molde não abandonará a consciência, e como seu antigo esforço não pode ser anulado, recusa-se a não ser preenchido por algo, de maneira que o antigo conteúdo da fé é substituído pelo conteúdo de uma esperança utópica num futuro além do tempo, ou numa sensação nostálgica de um passado desde sempre esquecido.
A fé no Todo, portanto, a fim de não ser desperdiçada, é transmutada numa gigantesca poesia do eu, onde a suspension of disbelief coleridgiana se torna não apenas um pacto ficcional, mas um técnica para a própria existência. Só é nobre aquele buscou a fé de forma sincera, e do mesmo modo, com a mesma sinceridade, perdeu-a. Pois não seria a fé algo mais nobre que a razão, e a fé perdida ainda mais nobre que a fé positiva? "Is there no change of death in paradise?" diz um verso de Stevens, cuja poesia pode ser lida como uma espécie de soteriologia prática, esse Wallace Stevens que converteu-se pouco antes de sua morte, decerto porque viveu como se imanentizasse o eterno no efêmero, e quando soube que morreria, quis reificar o efêmero no eterno. E ele tem razão, pois conforme o verso, se houver uma eternidade, esta não deverá será muito diferente da vida.
Terça-feira, Outubro 16, 2007
As personagens da Doris Lessing falam em Klingon?
(criei)"um mundo novo para mim mesma, um reino onde os mitos e lendas dos planetas deixaram de ser apenas manifestações de indivíduos sozinhos, onde sobrevêm os aspectos das rivalidades e das interações do Império de Canopus com os outros impérios galácticos, Sirius, e seu inimigo, o império Puttoria, com seu planeta crimoso, Shammat."
Colonização intergaláctica? Interações do Império Canopus com Siriys, Puttoria e Shammat?
Jee! This is kinda creepy, right?
Aí vem o Sebastião: "É, Evelyn, você e essa mania que você tem de recortar citações fora do contexto e achar que pode ficar julgando ( "ficar julgando"! é, o sebastião está naquelas comunidades do orkut "eu odeio gerundismos" e tal, mas as vezes ele acha que usá-los dá uma certa ênfase no sermão) a obra inteira de um autor com base num preconceitozinho premeditado ( quando o emissor em questão faz uso do diminutivo eu sei que consegui irritá-lo de alguma forma - o uso do diminutivo é uma forma de fazer parecer que a atitude da qual você está sendo acusado é uma coisa muito mesquinha, muito ridícula. Tipo a mulher que observa o marido polir a sua coleção de tampinhas, ou reorganizar sua coleção barata de canecos de chopp comprados em oktoberfests na época em que ainda não tinha se casado - e nesse caso, reorganizá-los é uma forma de recordar esta fase da vida em que ele ainda era feliz - 'ah, você e seus habitozinhos, você e suas coleçõezinhas'. E este 'zinho', eu digo, é capaz de ferir um coração sensível.)
E daí eu respondo: Veja só Sebastião, se você não pudesse conhecer o todo pelas partes, você jamais conheceria coisa alguma. Eu sou daquele tipo de gente que se estiver jantando com um sujeito com a aparência de um Raul Bova, o senso moral de um Emerson, o witticism de um Chesterton e a inteligência de um Leibniz, e este sujeito soltar meio que acidentalmente um arroto disfarçado na mesa, este sujeito, oras, acabou de arruinar suas chances comigo.
Sexta-feira, Outubro 12, 2007
Der Panther
A pantera
No Jardin des Plantes, Paris
e fora isso a nada mais se atém.
A ela: como se mil grades houvesse,
mil grades e nenhum mundo além.
A leve marcha de seu passo altivo,
o qual se move em giros que decrescem
Qual dança de força em torno a um alvo
em que um anseio, nobre, se entorpece
Às vezes se descerra o véu, silente,
de sua pupila – onde uma imagem irrompe,
e através dos membros em tensão inerte
no coração, se interrompe.
O poema faz parte de uma coletânea de Rilke entitulada "Die Neue Gedichte" (Novos Poemas -- que Carpeaux admite ser a sua obra favorita, superando as "Elegias") uma espécie de livro de aprendizado onde o poeta coloca em prática as lições de seu mestre Rodin, de quem foi secretário por um certo período. Hoje em dia, é impossível não perceber algo de caricato no temperamento do homem Rilke: o estigma de 'poeta seráfico', o sentimentalismo exagerado das primeiras obras, a incapacidade de exercer atividades burocráticas, e toda esta atmosfera que se criou em torno da sua biografia, que antes me convence de que estamos lidando com um bebê chorão do que com um, oh, 'trágico expatriado", sendo que esta veneração incondicional do poeta por seu mestre Rodin, soa apenas como mais uma de suas futilidades poéticas. Seja como for, o bebê chorão Rilke é dos melhores poetas do século passado, e 'A pantera', dentre todos os poemas do mundo, é um dos que eu mais gosto.
Como se estivesse realizando a tarefa de um escultor, Rilke opta por um sistema preferencialmente imagético, dentro do qual a descrição da pantera na jaula vai se ampliando de modo que, gradativamente, esta descrição abarque também os seus estados fisiológicos, engendrando a metáfora. Transcrevo aqui um trechinho do ensaio de Eliot "a música da poesia": "há poemas nos quais somos inebriados pela música e admitimos o sentido como correto, assim como há poemas nos quais prestamos atenção ao sentido e somos envolvidos pela música sem que disse nos apercebamos". Neste aspecto, a artesania brilhante de "A pantera" enquadra-se naquele segundo tipo de poema descrito por Eliot, justamente por 'neutralizar' a forma na imagem, e naturalizar a regularidade ritmica, métrica e sonora de maneira a dar a impressão de que na verdade não foi empregada uma forma fixa ali (pentâmetro iâmico). Se quiserem ver este efeito, é preciso ler o original ou uma tradução competente (a tradução do Augusto consegue com muito sucesso este efeito, mesmo que tenha que metaforizar algumas partes que no orginal são mais definidas. Na minha versão, ao contrário, a forma é mais pronunciada). De fato, "somos envolvidos pelo música sem o perceber", e ao final do poema temos o sentido claro diante de nós: a idéia do confinamento do homem à si próprio, e a visão efêmera do transcendente que o assalta de tempos em tempos, entre cujos intervalos é relegado à tensão decorrente de sua própria limitação. A perfeita harmonia entre forma e conteúdo pode ser ilustrada no último verso, que é o único a não obedecer o padrão métrico do restante do poema; suprime três pés, para coincidir com o momento em que a 'imagem deixa de existir no coração". Um dos aspectos presentes na maioria das traduções que eu li, modifica a perspectiva dos primeiros versos para a voz ativa, pois no orginial alemão "..ist vom Vorübergehn der Stäbe", não quer dizer "a pantera olha o passar das grades", e sim que "as grades passam pelo seu olhar", como se fossem elas que se movimentassem, e não a pantera - reforçando a idéia da passividade. (este recurso me lembra um comentário de Harold Bloom sobre um trecho da novela "Hadju Murad", na qual, para criar o efeito do movimento dos cossacos sobre os cavalos, Tolstoi descreve a passagem rápida das nuvens enquanto cavalgavam).
Para os que entendem alemão, aqui vocês encontram a coletânea completa.
Segunda-feira, Outubro 01, 2007
Bela plumagem em carne ruim: é o Brasil
"HANDS off!" cried the bachelor, involuntarily covering dejection with moroseness.
"Hands off? that sort of label won't do in our Fair. Whoever in our Fair has fine feelings loves to feel the nap of fine cloth, especially when a fine fellow wears it."
"And who of my fine-fellow species may you be? From the Brazils, ain't you? Toucan fowl. Fine feathers on foul meat."
Aqui
Embora em 1857 o "toucan" de Melville não pudesse estar se referindo ao PSDB, a ironia do autor americano quanto às nossas tão caras "belezas naturais" permanece irredutivelmente intocada e atual. Pelo visto o único jeito de ver o Brasil mencionado por um grande autor da literatura universal é sob a forma de troça.
Domingo, Setembro 16, 2007
a religião do Verbo e a pureza eliotiana frustrada
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